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segunda-feira, novembro 16, 2009

“Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.


Eles pensavam que, porque queriam, era possível. Defeitos, todos os têm, não é mesmo? Diferenças podem acrescentar, não podem? Então, tentaram. No início, tudo era motivo de sorriso. E daí se ele gostava de forró e ela de Pink Floyd? “Pinky do cérebro?” “Haha, não, não, um dia eu te mostro.” “Escuta aqui a letra dessa música, que coisa poética.” “Poesia!? Bob Dylan teve uma crise epiléptica por transmissão de pósitrons agora! No dia que isso for poesia, meu caderno de caligrafia da 1ª série vai bater o Aurélio como exemplo de gramática da língua portuguesa!”

“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar era fácil.”

E o tempo passou. E o tempo destrói tudo. Bastava querer, não é mesmo? A + B = C.

“Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.”

Tentaram adaptar-se, tudo em vão. Desacertos. Desentendimentos. Sorrisos estáticos enquanto os olhos estavam úmidos. É fácil trocar as palavras, difícil é interpretar os silêncios! - F. Pessoa bem dizia.

E tudo tornou-se cobrança. Uma desatenção era motivo de rancor. O eterno pisar em ovos. Se ela falasse, perderia-o? Mas, por não falar, ela se perderia e, por ela se perder, ela o perderia, também.

“Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.
Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.”
Clarice Lispector - Por não estarem distraídos.


E o fim, já previsto. E a mágoa, já esperada.
E agora?

"eu preciso andar
um caminho só
vou buscar alguém
que eu nem sei quem sou."

domingo, outubro 25, 2009

Demônios internos

Analisando os arquivos antigos desse blog, senti vergonha do que escrevi em vários momentos. Sabem, eu já tive um gênio bem difícil. Não falo que ele tornou-se fácil (certas coisas levam tempo), mas aprendi muita coisa nessa vida. Uma delas diz respeito às ações em resposta à ignorância de outras pessoas. Já fui de argumentar, discutir, alterar-me, enfim, entrar na briga pra vencer na porrada mesmo. O tempo, contudo, ensinou-me o seguinte: não vale a pena perder a razão. NUNCA. Ao agirmos por impulso, tendemos a nos igualar com aquele que nos feriu e isso gera uma reação em cadeia, porque outras pessoas que não tinham a menor participação na história terminam sendo feridas, também. Eis um texto bem interessantes sobre esse assunto:

Um velho avô disse a seu neto, que veio a ele com raiva de um amigo que lhe havia feito uma injustiça:

- Deixe-me contar-lhe uma história. Eu mesmo, algumas vezes, senti grande ódio daqueles que magoaram tanto e que não demonstraram qualquer arrependimento ao que me fizeram. Todavia, o ódio lhe corrói, mas não fere o seu inimigo. É o mesmo que tomar veneno desejando que seu inimigo morra. Lutei muitas vezes contra estes sentimentos..
E ele continuou: - É como se existissem dois lobos dentro de nós.Um deles é bom e não magoa. Ele vive em harmonia com todos ao redor dele e não se ofende quando não se teve intenção de ofender. Ele só lutará quando for certo fazer isto, e da maneira correta. Mas o outro lobo, ah! Esse é cheio de raiva. Mesmo as pequenas coisas o lançam num ataque de ira. Ele briga com todos o tempo todo e sem qualquer motivo! Ele não consegue raciocinar, porque sua raiva e seu ódio são muito grandes. E é uma raiva inútil, pois ela não irá mudar nada do que aconteceu..Algumas vezes é difícil conviver com estes dois lobos dentro de nós, pois ambos tentam dominar nosso espírito.

O garoto olhou intensamente nos olhos de seu avô e perguntou:
- E qual deles vence, vovô?

O avô sorriu e respondeu baixinho:
- Aquele que eu alimento mais freqüentemente.

"E no final, o amor que você recebe equivale ao amor que você dá."

segunda-feira, outubro 12, 2009

Plagiando descaradamente uma idéia de Sacoleiro, o Infame

COISAS QUE ME ASSUSTAM NA CALADA DA NOITE PRETA



O twitter do Serguei. http://twitter.com/sergueirock





Quem, eu?!!?!


Sintam só as pérolas:

"Acabei de tomar um banho de mar com minha sunga de crochê branca e percebi que minha sensualidade continua atraindo olhares."

"Existe sex shop que vende árvore inflável? As noites tão frias demais para que eu possa fazer um carinho no meu cajueiro."

"Uma joaninha acabou de pousar no meu braço, me deixando todo arrepiado. Tô sensível hj. A noite será rock and roll!!!"

"Sonhei ontem com meu gato Grilo. Ele não estava mais grilado e só miava I LOVE YOU pra mim. Volta Grilo, PLEASE!"

"Ontem fiquei DOWN. Fui aplaudir o sol e acabei matando um besouro que resolveu voar entre as minhas mãos. RIP beetle!"

"Hj é o dia sem carro? Amo bicicletas. Pedalando, exercito o físico. E a sexualidade tb, dependendo do tipo de banco."

sábado, outubro 03, 2009

sexta-feira, setembro 25, 2009

No consultório médico

- Que linda a cor do seu cabelo, são mechas californianas?
- Mecha de quem?
- Californiana, aquela que é só nas pontas.
- Não, não, isso é falta de tempo e de dinheiro pra consertar o cabelo em salão especializado.




A moda anda tão democrática que até quem não faz esforço pra estar nela está sendo copiado, cambada.

Enquanto isso, poeminha vagabundo escrito num muro de Fortaleza:
"Tanta coisa pra te dizer, tanta coisa pra te falar/ E, apesar de todo esse tempo/ é tão difícil disfarçar que eu nunca deixei de te amar."

Huar.
(Pensamentos de bobinhos apaixonados da 4ªsérie ainda me comovem.)

domingo, setembro 13, 2009

Nunca eu tivera querido
Dizer palavra tão louca
Bateu-me um vento na boca
E depois no teu ouvido
Levou somente a palavra
Deixou ficar o sentido

O sentido está guardado
No rosto com que te miro
Nesse perdido suspiro
Que te segue alucinado
No meu sorriso suspenso
Como um beijo malogrado

Nunca ninguém viu ninguém
Que o amor pusesse tão triste
Esta tristeza não viste
E eu sei que ela se vê bem
Só se aquele mesmo vento
Fechou teus olhos também

Cecília Meireles

"Arrependemo-nos raramente de falar pouco, e muito frequentemente de falar demais: máxima usada e trivial, que todo o mundo sabe e que ninguém pratica." Jean de La Bruyère

Creio que o problema não seja necessariamente "falar". O problema, na maioria das vezes, é "como se fala".(ou, em outros casos, "como se compreende".)

sábado, agosto 01, 2009

Maru

Não é de hoje que vocês já devem ter percebido meu interesse por felinos.
Até os dezessete anos, quando ganhei minha primeira gatinha, eu não compreendia como alguém poderia gostar de entidades peludas e causadoras de espirros que dormem, comem e nos miram com olhar de desprezo o dia todo.
Foi então que eu aprendi que certas belezas só são compreendidas por quem as vivencia. No caso, todos os gatinhos que me presentearam com sua companhia se tornaram amigos fiéis e extremamente carinhosos. Descobri que, diferentemente dos cães, os gatos só demonstram sua real personalidade àqueles que eles escolhem como donos e, uma vez que um gatinho é cativado, você se torna eternamente responsável por ele.
(mas todas as amizades - sejam elas entre quais espécies forem - não deveriam ser assim?)
Nada contra os cachorros, aliás, quem conheceu minha finada cadela Milla também sabe o quanto eu a amava. Eu diria que não há uma relação de melhor/pior entre essas duas espécies; elas são, simplesmente, diferentes. Por exemplo, eu sou alucinada por café e por chocolate. Se alguém me dissesse que eu teria de escolher entre um dos dois, quando esse alguém se distraísse eu meteria o chocolate no bolso e sairia correndo com a xícara de café. (simples, muito simples)
Mas então.
Gostaria de apresentá-los o gatinho japonês Maru.


Como vocês podem perceber, ele tem uma certa queda por caixas grandes de papelão.



E por caixinhas de papelão com propaganda de iorgute dietético também.

O dono do Maru se diverte tanto com tais registros que até site em japonês/inglês ele fez:
http://sisinmaru.blog17.fc2.com/



:::Oraessa, se eu tivesse tempo livre, filmaria as traquinagens da Sylvie e do Chá-Chá também!:::

sexta-feira, julho 24, 2009

Apresentações



::::O namoradinho carinhoso da gata gorda, o gato Chá-Chá.:::
Filosofemos

Presenteando-me com um intervalo enquanto escrevo um capítulo para um livro de Ginecologia (a propósito, se alguém puder me fornecer algum artigo científico sobre 'sangramento anormal no climátério' do ano de 2005 pra cá eu ficaria deveras feliz&contente), flaguei-me pensando no ato de estupidez que eu cometi hoje ao apagar um SPAM nos comentários e terminei apagando tambem as palavras de afeto&carinho do meu querido leitor Ubiratan, vulgo Bira, que estavam logo abaixo.

A propósito e NADAVER com o texto,'Ubiratan'é o nome de um professor de química da época do cursinho que, certa vez, presenteou-me com balas de gengibre que eu detestei mas que guardei a caixa com carinho porque ele disse que o desenho da embalagem o lembrou de um desenho que eu fizera dele há algum tempo. (e antes que vocês me perguntem, o desenho era meiguinho.)

Infelizmente, não pude salvar os comentários desse leitor, mas me diverte o fato que, depois de tanto tempo, ele vem aos comentários fazendo referência ao tempo em que eu prestava vestibular (e eu já passei da metade do tempo de faculdade) e citando um namoro que acabou há mais de três anos ( que hoje é uma bela amizade, felizmente) enquanto eu já tive outras experiências depois desse relacionamento (aliás, estou no meio de uma delas, a diferença é que eu não a exponho aqui) como se tais fatos me afetassem. É semelhante a algum coleguinha que ficou chateado com você nos tempos de jardim da infância aparecer hoje na sua vida adulta dizendo que você é "bobo" e que nunca conseguiu lhe perdoar porque, um dia, vocês trocaram uns pontapés porque vocês dois queriam o mesmo pedaço do bolo de aniversário de outro coleguinha seu.

Bira, preciso lhe informar,a vida não é um retrato: ninguém é inerte, ninguém é imutável. Eu amadureci nesses três anos, e lhe sugiro que faça o mesmo. Tanta coisa bonita e terrível aconteceu na minha vida depois dos fatos que você relembrou que hoje tais recordações me dão o conhecido 'sorriso da saudade', uma vez que eu já tirei delas o que elas tinham a me oferecer (e a gente tem de carregar consigo o que é bom, o resto é resto). Sugiro que você analise sua raiva e o seu rancor e se pergunte o porquê da necessidade de você transferi-los para mim. Desejar mal a alguém gratuitamente é a mesma coisa de tomar veneno todos os dias e esperar que outra pessoa morra envenenada, caro leitor abusadinho.

No mais, como diriam os Beatles, a vida é muito curta e não há tempo para implicâncias e brigas, meu amigo.

Vida bandida


Trabalhar em ambulatório de Fortal(nada contra os baianos, tudo contra a axé music e suas assonâncias e aliterações nauseantes)é experiência pra poucos.
Ontem, em meio a Plasils injetáveis e glicoses 50%, apareceu no ambulatório uma menina bonitinha, aparentemente de boa casta social, acompanhada de uma amiga e de um amigo.
- Pessoal, só pode entrar um acompanhante por vez.
- E você é quem?
- Estagiária de plantão, prazer.
(indicando o crachá). Sua amiga só fez uso de álcool?
- Eu bebi tudo! Tudo! O que você botar aí eu bebi!
- E cheirou também?

- (Virando-se para a amiga ao lado)Essa loira tá perguntando se eu tô fedendo?
- Não, eu estou perguntando se você cheirou cocaína ou lança-perfume.
- AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAA.. Não digo pra você.

(fiz uma aceno pro segurança)
- Não não calma, foi cachaça, muita kátia, sabes?
- Espera um pouco que eu vou indicar glicose pra você. Vomitou? Ô Chico, olha aqui a pressão dela pra mim?
- Ah, então você não sabe olhar pressão? Eu bem que achei que pela sua cara você não era médica!

- (auxiliar chegando ao meu socorro) Dra, elas normalmente são assim quando é mulher que atende..
- É, tô vendo que essa daí promete. Pressão 120 por 80? Tá ÓTIMA! Manda ela comer um chocolate e libera!

- (amiga que se aproxima com olhar de sofrimento) Dra, é que ela gastou todo o dinheiro no bloco.. Não tinha como a Sra. ajudar aqui?
- Certo, certo. Chico, me arruma uma seringa com agulha 23 e duas ampolas de glicose 50%?


E foi aí que aconteceu. A ébria maldita mordeu minha mão quando eu coloquei o acesso, quase me furando com o diacho da agulha também.
- Ah, aí é esculhambação. (aceno pra outro estagiário) Ei, você poderia assumir essa daqui pra mim?

Uns 10 minutos depois de deixar a bêbada maluca com meu amigo, volto ao local do crime para conferir se ele tinha obtido mais êxito do que eu. Quando me aproximo, deparo-me com a cena ridícula dela colocando os pés por cima dele e puxando o braço dele para o meio de suas pernas.
- Rapaz, olha a postura..
- Essa mulher tá maluca! Se eu não tentar segurá-la, ela sai chutando tudo, e quando eu seguro, ela tenta me agarrar!
- Vem cá branquinho, só um beijinho, vem..
- E eu, que levei uma mordida dela?
- EU TAMBÉM LEVEI!
- e me mostrou uma marca arredondada no pescoço.
- Olha, assim não dá. Segurança, leva essa entidade pro mais longe possível daqui. Se é sexo que ela quer, não vai ser aqui que ela vai achar.
- (meu amigo olha pros dois lado e sussurra) Assim.. Se me liberarem um tempinho..

Eu lanço O olhar. Ele chama o segurança de novo. Minutos depois, o mesmo segurança aparece carregando a menina(que continuava me xingando e continuava abrindo as pernas freneticamente pra todo homem que cruzasse seu caminho) nos braços.
- Eu fiz o que a Sra. mandou.. Mas ela arrumou briga, rasgou a roupa.. mandaram trazer de novo pra cá..
- Deusdocéu, tem algum amigo dessa criatura que possa levá-la pra casa?
- Dra., é que ela acabou o namoro e ficou triste..
- E tá acabando com minha paciência também!
(espressão de malinidade)Segurança, leva ela pro outro ambulatório, por favor? Diz que aqui tá lotado.

Quando ela finalmente foi embora, um outro auxiliar de enfermagem que estava observando a presepada toda me puxou para um canto e disse:
- Já tá aprendendo como se lida com esse tipo de paciente, né?
- E olha que hoje é só o primeiro dia de plantão..
- É.. Ela estava tendo um AVC..
- AVC? Tem certeza? AVC pode dar quadro de delírio, mas eu não vi nenhum sinal que indicasse..
- Não não, não é esse AVC. É outro tipo: Ânsia da Vagina Carente.



::::Eu me meto em cada uma.::::